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Solenidade da Anunciação do Senhor – 25 de Março

O dia em que o Verbo eterno de Deus se fez carne no seio de uma virgem de Nazaré

O mistério que mudou a história

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. E o Verbo se fez carne. O momento em que essa transição aconteceu não foi num templo, não foi diante de multidões, não foi anunciado por trombetas. Aconteceu numa casa simples, numa cidade pequena, diante de uma jovem que ninguém conhecia. E tudo que foi exigido dela foi um sim.

A Solenidade da Anunciação do Senhor é a celebração desse instante: o momento em que o arcanjo Gabriel foi enviado por Deus a Nazaré, na Galileia, a uma virgem chamada Maria, prometida em casamento a José, da casa de Davi. O anjo entrou onde ela estava e disse: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” (Lc 1, 28).

Maria perturbou-se com aquela saudação. São Lucas nos diz que ela ficou a pensar o que aquilo queria dizer. O anjo continuou: “Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo.” (Lc 1, 30-32).

A pergunta de Maria foi direta: como seria isso, se ela não conhecia varão algum? A resposta do anjo foi ainda mais direta: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus.” (Lc 1, 35).

E então veio o sim mais belo da história humana: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.” (Lc 1, 38).

Naquele momento, o Filho eterno de Deus se encarnou no seio virginal de Maria. A eternidade entrou no tempo. Deus se fez homem.

Por que 25 de março

A data não é arbitrária. O dia 25 de março foi fixado exatamente nove meses antes do Natal, seguindo a lógica da gestação humana de Cristo. A celebração tem raízes nos primeiros séculos do Cristianismo: a devoção à Encarnação já era venerada no século IV na Palestina, e a festa foi se difundindo no Oriente a partir do século V e no Ocidente a partir do século VI, durante o reinado do imperador Justiniano.

Foi o Papa Sérgio I, no final do século VII, quem a introduziu solenemente no calendário litúrgico romano, com uma procissão na Basílica de Santa Maria Maior — basílica cujos mosaicos do arco triunfal são inteiramente dedicados à maternidade divina de Maria, proclamada Theotokos no Concílio de Éfeso, no ano 431. Quando a data cai na Semana Santa, na Semana de Páscoa ou num domingo da Quaresma, ela é transferida para o primeiro dia disponível.

A escolha do dia 25 de março também carrega um simbolismo mais antigo: era considerado o sexto dia após o equinócio da primavera no hemisfério norte, e a tradição associava esse sexto dia à criação do homem, o sexto dia da Criação segundo o livro do Gênesis. Era conveniente que a recriação do homem — a Encarnação — acontecesse no mesmo dia simbólico.

Uma festa de Cristo e de Maria

Por séculos, esta solenidade foi celebrada predominantemente como uma festa mariana, ligada à maternidade divina de Nossa Senhora. O Papa Paulo VI, na reforma litúrgica do pós-Concílio, restaurou-lhe o título de “Anunciação do Senhor”, afirmando seu caráter primordialmente cristológico: a festa é, em primeiro lugar, sobre Cristo — sobre o Verbo que se faz carne, sobre o Filho de Deus que assume a natureza humana para salvar a humanidade.

Mas Maria nunca sai de cena. A festa é, como o próprio Paulo VI escreveu, uma celebração de Cristo e da Virgem ao mesmo tempo: do Verbo que se torna filho de Maria, e da Virgem que se torna Mãe de Deus. As duas realidades são inseparáveis. Toda referência a Maria aponta para Cristo; e a Encarnação de Cristo não pode ser narrada sem o sim de Maria.

São Bernardo de Claraval, num dos mais belos trechos da patrística ocidental, meditou o silêncio que se fez no mundo inteiro enquanto o anjo aguardava a resposta de Maria. E escreveu que o pobre Adão, expulso do Paraíso, a implorava; que Abraão a implorava; que Davi a implorava; que os patriarcas nas trevas a aguardavam. E que o mundo inteiro estava prostrado a seus pés, esperando que ela dissesse sim.

Ela disse.

O que celebramos neste dia

A Solenidade da Anunciação é, no fundo, a festa da Encarnação. É o dia em que a Igreja para, olha para o centro de tudo e diz: Deus se fez homem. Não metaforicamente, não simbolicamente. Real, histórica, concretamente. Com um corpo, com sangue, com um nome. Jesus.

São Leão Magno, no século V, descreveu o mistério com palavras que a liturgia da Igreja preservou até hoje: a humildade foi assumida pela majestade, a fraqueza pela força, a mortalidade pela eternidade. Para saldar a dívida da condição humana, a natureza impassível uniu-se à natureza passível.

A cada vez que a Igreja reza o Credo e chega às palavras “e se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem”, os fiéis se ajoelham. Um gesto simples, feito mil vezes, que guarda dentro de si toda a espessura deste mistério.

Hoje, 25 de março, a Igreja se ajoelha inteira.

Oração da Solenidade da Anunciação do Senhor

Infundi, Senhor, nos nossos corações a Vossa graça para que, conhecendo pela anunciação do anjo a encarnação do Vosso Filho, cheguemos pela sua Paixão e Cruz à glória da Ressurreição. Pelo mesmo Cristo, Nosso Senhor. Amém.


Fontes

Vatican News. Canção Nova, Liturgia Diária. Portal A12, Santuário Nacional de Aparecida. Centro de Liturgia Dom Clemente Isnard. SGARBOSSA, Mario; GIOVANNINI, Luigi. Um Santo para Cada Dia. Edições Loyola. Martirológio Romano.

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